sábado, 24 de agosto de 2013

Excerto de "Progrès"

Provavelmente escrito em Maio de 1927, Progrès é a segunda (e última) peça de teatro escrita por Céline. A peça foi elaborada logo depois de sua outra peça, "L'Église". Céline enviou o manuscrito para a Gallimard, qual recusou, em outubro do mesmo ano.  As edições Mercure de France publicou a peça em 1978 e em seguida foi incluída no Cahier 8:  Progrès, suivi de Oeuvres pour la scène et l’écran (Ed. Gallimard, 1988). O primeiro nome da peça foi Périclès, subtitulado ""Farce en trois tableaux et petits divertissements". Esta peça apresenta evidentes imperfeições, mas possui o mérito de ter muitos pontos em comum com Morte à crédito.







                                                    Progrès

Personagens:

Marie: Ela não é bonita, é gentil, possui um ligeiro coxear, é bem humorada, ainda lúcida. Vinte e seis anos de idade.

Madame Punais:  Mãe de Marie, cinquenta anos de idade, sobriamente vestida, não triste, previamente uma retalhista de vestidos para senhoras, ela leva uma boa vida como comerciante de antiguidades.

Gaston: Trinta anos de idade, marido de Marie, irritável e inseguro, apaixonado e emocional, empregado em um escritório de seguros.

Mme. Doumergue: Muito, muito velha, ela dá aulas de piano, e é também manicure.

Criada: Uma típica empregada doméstica, parcialmente Breton.

Homem do Gás: Um típico trabalhador de empresas de gás. 

Ato Primeiro:

As personagens estão vestidas de um modo um tanto fantástico, embora não excessivamente, d'uma forma colorida, divertida, de um jeito simbólico parecido a um sonho, embora também não tão excessivamente-iluminado como num sonho, exceto em certos momentos específicos.
Primeira cena - Marie está num lounge, muito luxuoso. No palco: Marie e Madame Punais. Marie está tocando o piano com dificuldade, um fox-trot que ela tenta tornar efervescente e cínico. Ela está achando difícil, muito difícil. Sua mãe assiste e ouve. Mas Marie fica um pouco iritada e se levanta para fechar a janela. No momento em que vai fechar a janela nós percebemos que ela tem um coxo. Enquanto Madame Punais vê o andar molenga de sua filha, observa Marie ainda mais de perto, mas não diz nada. Marie volta ao piano e toca,  sua mãe sai de cena por um momento então volta e remoceça a ler o jornal. 

Mme. PUNAIS: Honestamente, Marie!...  apenas ouça isto!... (Marie continua tocando o piano) Marie! Eu digo!... você acreditaria?

MARIE: (um pouco impaciente) Mãe!...

Mme. PUNAIS: Você acredita nisto? Escute!...

Marie: (ainda tocando) O que?

Mme. PUNAIS:  Honestamente, o Bois de Boulogne!...

Marie: O que é isso de Bois de Boulogne?

Mme. PUNAIS:  Bem, maníacos sexuais...

Marie (não impressionada): Aah!... 

Mme. PUNAIS: Bem, abençoe-me, você ainda acha que não há nada de errado com isso! Está acontecendo há 4 anos... eles dizem que vão pra lá em grupo, e de carro.

Marie: Oh Mãe!

Mme. PUNAIS: Oh! Jovem moça!

Marie: Que?

Mme. PUNAIS: Vá é tocar piano, já... eu sou a única que lhe deu isto.

Marie: Eu já lhe agradeci por isso. 

Mme. PUNAIS: Oh, não direi que paguei muito por ele, você sabe melhor que eu... Nos últimos 15 anos esteve na loja... é a única coisa que não foi vendida em 15 anos.

Marie: Ah, ele esteve no lugar errado, cercado por bugigangas - se você o tivesse colocado perto da janela, como eu costumava dizer-lhe, teria sido levado embora, mas foi escondido por toda essa tralha invendável, você não poderia vê-lo lá de fora, também.

Mme. PUNAIS: Enfim, você herdou, não se queixe... você quer ter aulas novamentes, eu fico feliz em pagar por elas... pelo piano... agora deixa isso pra lá e dê as cartas.

Marie (passando-as): Você lerá as suas?

Mme. PUNAIS (dividindo-as): Não! Eu vou ler as suas, você parece ansiosa.

Marie (sem prestar muita atenção nas cartas): Quem te deu a ideia de me dar aulas?

Mme. PUNAIS: Madame Doumergue...

Marie: Velha Mãe Doumergue?

Mme. PUNAIS: Sim!... Vamos, você certamente se lembra dela.

Marie: Claro, mas pensei que ela estava morta - você lembra, ela subia as escadas assim... Ah!... Ah!... (ela fica ofegante)

Mme. PUNAIS: Ela ainda sobe assim! ah! ah!

Marie: Você tem certeza que é ela?

Mme. PUNAIS: Claro que tenho, ela ainda dá as mesmas aulas.

Marie: Ela deve ser centenária, então!

Mme. PUNAIS: Eu vou perguntar a ela.

Marie: Você foi onde ela mora?

Mme. PUNAIS: Sim, em Asniéres, ela ainda tem sua casinha com treliças trabalhadas no primeiro andar e um jardim com pequenas bolas suspendidas, que ainda são ligeiramente brilhantes. Ver isso não me faz sentir mais jovem, posso lhe dizer, especialmente as bolinhas! Isso me faz lembrar que seu pai costumava circular com uma lambreta ao longo do aterro de Asniéres, com uma camisa solta e uma gravata fina com bolotas fantásticas desenhadas na parte que cobre o umbigo. Suas panturrilhas eram soberbas. Essa moda ainda voltará, você verá homens com gravatas finas, mas não da forma fantasiosa, não se verá homens jovens em forma fantasiosa, a moda nunca mais será fantasiosa, eu acho porque nos vendemos muito aos créditos, e é isso que faz as pessoas ficarem tristes, elas todas têm dívidas.  No meu tempo só artistas tinham dívidas, mas por eles se recusarem a pagar essas dívidas, nunca ficaram tristes.

Marie: Então o que Madame Doumergue lhe disse?

Mme. PUNAIS: Que estava muito feliz em ver-me, mas, como cheira sua casa! Você não acreditaria! Eu não estou interessada no passado quando ele fede tanto quanto isso! De qualquer forma, você não irá lá, ela virá aqui.

Marie: Mas mãe, você matará ela, fazendo-a viajar naquela idade! 

Mme. PUNAIS: Não, ela me disse que prefere vir aqui, no verão, ela pegaria o barco desde Saint-Cloud e voltaria de bonde elétrico.

Marie: De barco ela estaria bem - mas na sua idade, de bonde?... Você tem certeza que estamos falando da mesma pessoa?

Mme. PUNAIS: De fato estamos! Além de tudo, nós não mudamos nada!...

Marie: O que fez você pensar em entrar em contato com ela, em particular?

Mme. PUNAIS: Ela me deve dinheiro, o mesmo que ela me deve de 20 anos atrás. Ela está na categoria dos artistas. Quando se trata de dívidas ela não paga e isso não a desconforta. 

Marie: Quanto ela te deve?

Mme. PUNAIS: É segredo.

Marie: OH!

Mme. PUNAIS: Sim.

Marie: OH!

Mme. PUNAIS: Isso foi após nossa formatura, você acabava de se tornar noiva de Gaston La Garenne, seu marido (silêncio)... evitando assim o casamento com Jean Bart, que era perfeito. 

Marie: Sim, mamãe.

Mme. PUNAIS (resignada): Não vamos voltar a isso agora... Eu realmente gosto de Gaston, também.

Marie: Ainda melhor.

Mme. PUNAIS: Foi nesse momento que você parou com o piano, a fim de ficar noiva de Gaston, e não se casar com Jean Bart, 13 anos atrás. 

Marie: TREZE ANOS ATRÁS!

Mme. PUNAIS: Treze.

Marie: E então...?

E. Doméstica: Sou eu de novo!

Mme. PUNAIS: Venha!

Marie: Vá embora!


Mme. PUNAIS: Nãe se mova, posso dizer que você tem algo a contar.

Doméstica: É a cera-polaca!

Marie: Muito bem, então!

Mme. PUNAIS: Vá-te!

Doméstica (enquanto sai): Que seja!

Mme. PUNAIS: Aqui. (lendo as cartas) oh!... Marie!... um pequeno problema...  outra vez... eu vejo... pequenos problemas... muitos deles...

Marie: Isso soa como se tivesse algumas novidades para mim!

Mme. PUNAIS: Ah! Problemas de saúde!... mas nada para se preocupar, são constipações...

Marie: Quanto ela irá te cobrar pelas aulas de piano?

Mme. PUNAIS (lendo as cartas): Eu sempre posso ver a Saúde, você sabe.... É Saúde.

Marie: Oh! Eu não sei nada sobre isso! Diga-me então se ela ainda toca piano com sua idade, você escutou ela tocar?

Mme. PUNAIS: Mas ela sempre foi uma artista, essa mulher, ela tocava e cantava singularmente, há trinta e cinco anos atrás ela ainda tinha bons ombros, seu pai falava dela muitas vezes para não acabar dormindo com ela.

Marie: Oh! Mãe!

Mme. PUNAIS: Sua mãe sabe que foi traída, isso me deixava triste à toda hora, ainda mais triste é ser viúva.

Marie: Então, mãe, você conhece M. Doumergue há muito tempo?

Mme. PUNAIS: Eu a conheço de dentro para fora. Não apenas por ela ter sido amante de seu pai, mas também nunca pagou pela pequena penteadeira Luís XV, uma pequena joia, que comprou de mim. Eu nunca vou esquecer aquele dia antes do Dia de Todos os Santos, no ano de 1900. Ela comprou, 120 francos. Oh! Pode-se dizer com segurança que ela não está preocupada com a dívida, de vez em quando eu vou lá lembrá-la, e ela diz: "Oh! Madame Punais, nós nos conhecemos há muito tempo, agora, venha agora! Não falaremos disso outra vez!" Eu não consigo nada mais com ela. É verdade, nos conhecemos há muito tempo! De qualquer maneira, ela ainda tem, aquela minha penteadeira, a original. Eu vendo cópias dela, desde então. A preços altíssimos! Mas ela tem a original, e nunca pagou por ela. (lê as cartas) Veja: Problemas. (Nós ouvimos alguém tocando piano no apartamento vizinho).

Marie: Você pode ouvir mesmo através do concreto armado, nós podemos ouvir tudo... Não sinto mais a casa. E é o mesmo com todas as novas-casas.

Mme. PUNAIS: Ele toca bem, não é? Ele coloca coração nisso... talvez esteja tocando para você...

Marie: Para mim?

Mme. PUNAIS: Você não acha?

 Marie: Eu não sei mãe, porque ele tocaria para mim? É nosso vizinho!

Mme. PUNAIS: Oh... afinal toca bem, ele não é professor?

Marie: Não, é funcionário público.

Mme. PUNAIS: Ah! Ah! Bem, vocês poderiam, talvez, tocar à quatro mãos, vocês dois. 

Marie: Quatro mãos? Mas pela Graça de Deus, Mãe, um homem já me basta. O que você espera?

Mme. PUNAIS: Oh, eu, você sabe! Enfim, você quer agradá-lo ao mesmo tempo que não quer que ele seja ciumento. É difícil agradar um homem que já não é ciumento. - agora, você vê nas cartas.. um pequeno problema... Ah!, Sim... certamente há!

Marie: Você está obcecada com isso! (A doméstica entra na sala).

Mme.  PUNAIS (para a doméstica) : É uma senhora? (a doméstica balança a cabeça) Então vá se arrumar minha garota, é um cavalheiro.

Marie: Mas porque mãe?

Mme. PUNAIS: Oh, vá se ajeitar minha filha. Como você é irritante!

Marie: Mas porque?

Mme. PUNAIS: Oh! Vá! (Entra Monsieur Berlureau, muito reservado e pouco à vontade)

M. Berlureau: Madame... Tomei a liberdade de visitar-lhe... uma pequena visita, sou Berlureau.

Mme. PUNAIS: Muito prazer em recebê-lo, senhor.

M. Berlureau: Sou seu vizinho.

Mme. PUNAIS: Oh! Você toca tão bem! Você veio pela minha filha. Você a conhece?

M. Berlureau: Eu não a conheço, Madame, mas me desculpo por tocar, talvez já um pouco tarde da noite... nossas paredes são tão finas que talvez pode-se perturbar alguém sem estar ciente disso, então tomei a liberdade de perguntar, sou Berlureau.

Mme. PUNAIS: Mas como você toca bem o piano!

M. Berlureau: Oh, Madame, eu só me aventuro.

Mme. PUNAIS: Você não conhece ela. Ela ficará feliz. Ela sempre me diz: "Quão bem toca piano nosso vizinho!"

M. Berlureau: Oh, Madame, estou envergonhado, vou-me embora!

Mme. PUNAIS: Definitivamente não, senhor, é fato! Sua execução nos leva a um sonho.  

M. Berlureau: É uma correspondência espiritual.

Mme. PUNAIS: É isso! Você conhece meu genro, também? 

M. Berlureau: Não, Madame, eu não tive o prazer ainda, mas você sabe, eu só vim pedir desculpas por tocar tão tarde, às vezes.

Mme. PUNAIS: Oh! É estranho. Eu sempre tenho a impressão de que todo mundo conhece ele ... minha filha quer agradá-lo, ela tenta iluminar o quarto com o piano ... isso é uma idéia ...

M. BERLUREAU: Sim, isso é uma idéia ... (Gaston entra).

GASTON: Olá, Madame.

Mme. PUNAIS: Olá, Gaston. (Berlureau está envergonhado).

Mme. PUNAIS: Ele é o nosso vizinho, ele veio para nos dar uma breve visita e eu tive o prazer de me familiarizar com ele, ele é o pianista que ouvimos, você sabe.

GASTON: Que ouvimos com muito prazer.


Mme. PUNAIS: Bem! Ele veio para se certificar de que não nos perturba quando ele ocasionalmente toca à noite.

GASTON: Oh! Certamente que não, a sério, senhor, pelo contrário, é um verdadeiro prazer.

Mme. PUNAIS: Por que teríamos que pagar um tanto em outro lugar, mas eu vou pedir-lhe para vir e nos ver mais vezes Monsieur - você estaria disposto a tocar música com a minha filha?

GASTON: Oh! Madame! Isso é pedir muito, Marie está aprendendo.

Mme. PUNAIS: Não, eu acho que seria adorável.


                                                             [e, desgraçadamente, o piano continua ...]
 



















 







domingo, 14 de julho de 2013

Ah, Céline, só mesmo o Homem para se divertir com a própria morte enquanto caminha para ela...

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Abujamra - O Grande Absurdo

Abujamra recita Céline: "O grande cansaço da existência talvez seja apenas o mal que causamos a nós mesmos para nos mantermos razoáveis por vinte anos, quarenta anos ou mais, ao invés de sermos simplesmente nós mesmos, isto é: atrozes e absurdos."

A Lenda do Rei Krogold (excerto de Morte à Crédito) [1/2]

Minha história não tinha ganho nada com o tempo. Depois de anos de esquecimento, uma obra de imaginação não passa de uma festa antiquada... Afinal, Gustin ia me dar sua opinião sincera e imparcial. Fui logo fazendo com que ele entrasse na atmosfera da lenda.

- Gustin, você nem sempre foi o boçal que é hoje, endurecido pelas circunstâncias, pela profissão, pela bebida e pela necessidade de aceitar tanta coisa ruim... deixar o coração e o pau pulsarem com mais força, ouvindo uma epopéia, trágica, naturalmente, mas nobre... brilhante!... Você ainda é capaz disso?...

Gustin deixou-se ficar, no banquinho, sonolento, diante das amostras e do armário escancarado... Sem dar um pio... não queria me interromper...
- Eu tinha avisado que se tratava de Givendor o Magnífico, Príncipe da Critiânia... Chegamos... Agora mesmo, enquanto eu falo com você, ele está agonizando... O sangue escorre de vinte feridas...

O exército de Givendor acaba de sofrer uma derrota tremenda... O próprio rei Krogold, durante a luta, encontrou Givendor... Golpeou-o de alto a baixo... Krogold não perdoa... Faz justiça por suas próprias mãos... Givendor traiu... A morte se abate sobre Givendor e vai terminar sua tarefa...
"O tumulto do combate esmorece com os derradeiros clarões do dia... Desaparecem ao longe os últimos guardas do Rei Krogold. Na sombra levantam-se os estertores da imensa agonia de todo um exército... Vitoriosos e vencidos entregam a alma como podem... O silêncio abafa pouco a pouco os gritos e gemidos, cada vez mais fracos, cada vez mais raros... Esmagado sob um monte de correligionários, Givendor o Magnífico esvai-se em sangue... De madrugada a morte chega perto dele.
- Compreendeste Givendor?
- Compreendi, oh Morte! Compreendi desde o começo deste dia... Senti no coração, no meu braço, nos olhos de meus amigos, até no passo de meu cavalo, uma espécie de sortilégio triste e lento que se assemelhava ao sono... Minha estrela se apagava entre tuas mãos geladas! Tudo começou a fugir! Oh Morte! Que remorsos! Sinto uma vergonha imensa!... Olha esses pobres corpos!... nem uma eternidade de silêncio pode acalmá-la!...
- Não há paz neste mundo, Givendor! Só lendas! Todos os reinos acabam num sonho!...
- Oh Morte! Deixa-me viver um pouco mais... um dia ou dois! Quero saber quem me traiu...
- Tudo é traição, Givendor... As paixões não são de ninguém, o amor, principalmente, é só uma flor de vida no jardim da juventude.

E a morte, devagarinho, segura o príncipe... Ele não se defende mais... Ficou leve, sem peso... E depois um lindo sonho se apodera de sua alma... O sonho que sempre, quando era pequeno, no seu berço de peles, no quarto dos Herdeiros, perto de sua ama morávia, no Castelo do Rei René..."
Gustin tinha deixado as mãos caírem entre os joelhos...

Estava desconfiado. Não queria voltar à juventude. Defendia-se. Quis que eu explicasse tudo... por quê?... como?... Não é fácil... É frágil como uma borboleta. Por qualquer coisa se desmancha, suja as mãos. O que é que se ganha com isso? Não insisti.

Para organizar bem a trama da minha Lenda eu poderia documentar-me com pessoas finas,,, acostumadas aos sentimentos... às mil variantes das tonalidades do amor...
Mas prefiro resolver tudo sozinho. O meu problema é o sono. Se eu conseguisse sempre dormir bem, nunca teria escrito uma linha.
Muitas vezes as pessoas refinadas nada mais são do que gente que não pode gozar. É uma simples questão de disciplina. Essas coisas não se perdoam. Mesmo assim, vou descrever o castelo do Rei Krogold:

"... Um monstro tremendo no âmago da floresta , uma massa, acachapada, esmagadora, cortada no rochedo... formada de cloacas, cornijas carregadas de frisos e saliências... de outras torres... De longe, lá do lado do mar... as copas da floresta ondulam e vêm bater no sopé das primeiras muralhas...
A sentinela que arregala os olhos com medo da forca... Mais alto... Bem no alto... No topo de Morehande, a Torre do Tesouro, o Estandarte tatala na tormenta... Leva as armas reais. Uma serpente com a cabeça cortada e o pescoço escorrendo sangue! Malditos os traidores! Givendor está expiando seu crime!..."

Gustin não aguentava mais. Estava cochilando... chegava a roncar. Virei-me para fechar o armário de remédios e lhe disse: "Vamos embora! Vamos dar um passeio pelo Sena!... Vai-te fazer bem..." Ele preferia não ter que se mexer... Afinal, como eu insisto, ele resolve. Proponho um cafezinho do outro lado da "Île aux Chiens"... Lá, apesar do café, ele torna a adormecer. Já devem ser quatro horas, é o momento em que sonham os botequins... Há três flores artificiais no vaso de lata. Tudo fica esquecido no cais. Até o velho bêbedo debruçado no balcão se convence de que a dona não vai mais escutar suas histórias. Eu deixo Gustin em paz. O próximo rebocador que passar vai acordá-lo, com certeza. O gato largou a velhota para vir lamber as patas.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Carta d'África

Minha querida Simone,                       [29 de Outubro, 1916]

Já se passaram exatos dois anos desde o dia em que fui ferido. Lembro-me que, naquela época, não havia trincheira de comunicação entre a primeira linha de trincheiras e o posto de comando. Após o anoitecer você poderia ficar horas tateando até encontrar o posto de comando, já que naturalmente não havia iluminação para mostrar-lhe onde estava. 
Nós costumávamos chamar isso de "protegendo as vacas".
Eu estava "protegendo as vacas" quando o meu número foi chamado.
Hoje é domingo, e vou aproveitar para anunciar que detesto qualquer tipo de trabalho.
Nasci ocioso e adoro preguiça.
Eles alegam que o trabalho enobrece o homem, mas eu digo que o torna vil.
Correndo o risco de errar fora da amoralidade, eu proclamo que não sou obrigado a ganhar minha vida, eu gostaria de não fazer nenhuma maldita coisa, nada e nada.
Como é domingo, vou te recontar um pequeno conto que talvez você já conheça-
Um dia o Bom Deus estava andando pelos Bálcãs- Ele encontra um nativo que parecia um tanto ofendido- e pergunta "o que acontece, amigo?" -Silêncio-"Bem, eu lha darei o que você quiser e para provar que sou bom à todos, seus vizinhos receberão o dobro do que você pedir" - "Neste caso," disse o Bálcã, "me deixe cego de um olho".
Aí está você -E ainda, porque é domingo, vou lhe dar um pequeno problema para resolver. Você já deve ter sido convidada a resolvê-lo antes. Duas vacas num prado verde - uma delas é branca, magra, só pele e osso - A outra é negra, couro brilhante - gorda e radiante de saúde. De repente,a enraivecida e furiosa vaca branca pula na pobre, plácida vaca negra, e espeta com o chifre sua bunda. E agora, qual das vacas poderá dizer "eu tenho chifres na bunda"?

Destouches.

sábado, 16 de março de 2013

Poemas de Céline [2]

Retorno

1

Encontrarei você, fedendo como um pedaço de carne
numa vil noite
Eu farei dois buracos profundos negros
em sua face
Sua alma miserável irá escapar
pelo ar!
Você verá uma fina multidão lá!
Você verá como nós dançamos!
No Grande Cemitério des Bons Enfants!

Refrão:

Mas aqui está a tia Hortense
e sua pequena Léo!
Aqui está Clementine e o valente Toto!
deveriam nossos amigos anunciar
que a festa acabou?

Para o diabo com o seu jeito!
Se esconda! Fodido do cu!
Não importa para mim
Ó vigaristas! Vocês ladrões!
o vento irá levá-lo longe
como as preocupações e a morte partem!

2

Por um longo tempo agora você se queixará
porque você é um corno!
E eu que sou o punk responsável
pelos seus defeitos!
Então não vá estragar esta ocasião
ao ser aliviada
Venha comigo e sinta o gume de meu punhal
Para as grandes Ruínas de St. Mandé!

3

Todos sabem que você é um podre delator!
Que você fecha acordos de rato para porcos
como Houdini!
Foi assim que Mimile caiu
no cesto da guilhotina
Eu lhe darei um bilhete só de ida para longe daqui
direto em seu lombo!

4

Olhando para você Eu vejo
uma questão que está me devorando
Você será mais imundo
Morto ou Vivo?
E você repulsará os vermes
ainda mais ao solo?
Mas se você for estrangulado na fogueira
Então eu enfrentarei Mimile!
no Grande Cemitério des Bons Enfants!

(da "versão definitiva", 1956)


Katika (primeira possibilidade)

Eu amo Katika, a prostituta
Ela que não ama a manhã
Nem meu coração fiel, nem minhas rosas
no alvorecer cinzento e derramado.

Quando Katika se tornar corcunda
pelo fato de vender seu cu
Nós iremos às cidadelas para ver
o sino três vezes maior que ela

Que alguém toca toda a manhã
Para acordar as putas
Da Irlanda para os Dardanelles.
Grande Batalha, Parcos Espólios.

Katika (segunda possibilidade)

Eu amo Katika, a prostituta
Ela que não ama a manhã
Nem meu coração fiel ou minhas rosas
no alvorecer cinzento que precede a tempestade.

Quando Katika se tornar corcunda
pelo fato de vender seu cu
Nós iremos às cidadelas para ver
mendigos três vezes maiores que ela

Que nós repeliremos aos berros todas as manhãs
Para acordar as putas
Da Irlanda para os Dardanelles.
Grande Batalha, Pequena Recompensa.

(ambos os poemas são de um fac-simíle de um texto enviado para Henri Mahé, 1936)