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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Carta d'Africa [2]

 
(Céline trabalhou em Camarões como representante de uma empresa francesa no entretempo de 1916-1917 . Esta descrição de sua vida foi enviada para sua amiga de infância Simone Saintu. As excentricidades de estilo estão no original.)

Bikobimbo - 28 de junho de 1916

Minha Querida Simone -

Estou tão longe, muito longe como se estivesse separado do mundo para sempre.

Na verdade, eu estou em uma pequena aldeia de Negros que em si mesmo fica no meio de uma plantação que é por si só 11 dias distante do primeiro e único europeu, que supervisona uma área tão grande como a França.

Sob estas condições você entenderá facilmente a dificuldade que eu teria em fornecer-lhe notícias desta sociedade, as fofocas dos civilizados não atingem meus ouvidos, já não o faço desde algum tempo.

Os nativos que me cercam são chamados Paoins e são notoriamente conhecidos como canibais.

O que me permite testemunhar pequenas cenas que podem ser razoavelmente chamadas de "fatias de vida."

Além disso, o campo está completamente devastado por epidemias periódicas; malária e doença do sono florescem aqui. Adicione a isso a traição dos habitantes e você verá que tenho alguma dificuldade em salvar a minha vida, que já está tão carinhosamente amputada.

Resulta que de manhã à noite eu ando por aí coberto de véus espessos anti-mosquito - Eu cozinho para mim mesmo por medo de ser envenenado - Eu me intoxico com quinino e uma tonelada de outras drogas, a fim de me proteger da febre; Eu nunca saio sem capacete e óculos fortemente foscos por medo de insolação - Também de dia à noite tenho ao meu alcance um revólver, a fim de resolver as diferenças com os meus clientes, em cujos olhos eu às vezes espio um lampejo maldito de cobiça.

Além destes fatos encantadores, tenho que viver exclusivamente sobre a terra, que é nigger, você teria um retrato invejável da minha existência...

E mesmo assim tenho alguns consolos - a absoluta ausência de comentários sobre a minha conduta -  e a grande, total, absoluta liberdade.

O comércio que estou envolvido é de uma simplicidade angelical que consiste na compra de presas de elefante em troca de tabaco - você não pode imaginar quanto o nigger prefere fumar um cigarro a ser pago em moeda (cujo valor ele não sabe) - foi um espetáculo raro para mim, todos meu clientes ficaram satisfeitos com a venda deles - em média - dois maços de Marylands por um dente de elefante. Esses detalhes técnicos, provavelmente não lhe interessam muito, mas são a única razão de eu permanecer neste país encantador, bombardeando-o com o tabaco até a morte do elefante final.

Envie-me notícias suas imediatamente; isso me reunirá com o mundo: é menos feio de longe e apenas o lembro desta forma.

Sinceramente seu,

Louis


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Poemas de Céline

Gnomographia

Istambul dorme sob a lua pálida
O Bósforo cintila com mil chamas prateadas
Sozinho na grande cidade Maometana
O velho pregoeiro ainda não dormiu -
Sua voz repercute e é amplificada pelo eco
Anunciando para a cidade que já são 10 horas
Mas através da janela, do alto de seu minarete
Seu olhar inquieto mergulha num quarto
Por um momento permanece, em silêncio, preso pela surpresa
Ele acaricia nervoso a sua grande barba cinza
Mas, fiel ao dever, ele equilibra a voz
E então o eco atônito se  repete três vezes
Para a lua enrubescida, para as estrelas deslumbrantes
Para Istambul - A Branca - em breve será meio-dia.

Ngobonbong, 
Augusto 28, 1916.






O grande Carvalho

Mas já, lentamente, o céu está caindo.
Os raios ocidentais, perseguidos pela noite
Lutam contra a escuridão, e resistem novamente
Velando o recuo do sol que foge
Acima da rocha negra que encobre a floresta
Como o orvalho que ainda mantém a luz decrescente
Enquanto isso, pouco a pouco, a sombra levanta e leva embora
E mergulha, por sua vez, no Todo perturbado
Cada hora de nossa vida traz sua sombra
Afugentando a esperança, que nunca irá retornar
As ilusões perdidas, a amargura crescente
Invade nosso coração, destruindo-o e matando-o -

Bikobimbo,
Augusto 30, 1916.


O Presidente Vincent Auriol

Hey, veja o Presidente
Este é um destino muito trágico
Ele é bem pago, ele vive no Palácio do Presidente
Ele começou sua Carreira numa campanha feroz
Contra a Pena de Morte.
Ele era um Anarquista
E agora ele é Presidente
Nenhum Presidente assinou tantos perdões.
Há fantasmas que rondam o Palácio, lhe asseguro
Arrastando seus postos de Execução
E a retórica do Presidente.
Imaginem acabar assim!
Ele não pode fazer nada sobre isso, é assim que é...
Este é o Destino
Esses são os desafios
Ele é um homem corajoso
Ele deve assinar
Ou morrer.

1949.