segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Rabelais enfiou goela abaixo

O escritor que Céline mais admirava certamente era Villon (1432, desaparecido em 1463), e ele vê Rabelais na mesma tradição - hostil ao Renascimento que considerava destrutivo. Há certamente um ponto onde se encontram Villon e Rabelais, mas esta visão é um pouco perversa na medida em que desconsidera o entusiasmo de Rabelais para a cultura da Grécia e Roma, cultura desprezada por Céline. Neste texto a seguir ele ressalta que o uso que Rabelais fez da língua francesa de fato não sobreviveu. O que triunfou linguisticamente - que, na sua visão, trouxe resultados terríveis - foi o estilo acadêmico de Amyot, o tradutor de Plutarco que foi admirado por Montaigne e outros de sua geração:

"Rabelais enfiou goela abaixo a língua francesa falada na língua francesa escrita: um erro. Enquanto que Amyot, as pessoas querem e querem Amyot, o gênio do estilo acadêmico, duhamélico¹. É ele, que escreve merda: a linguagem petrificada.  As colunas do Figaro², que se orgulha de ter editores que escrevem bem, está abarrotada desses tipos. Le Figaro, é uma cloaca verbal bem afiada, frases bem conduzidas, e com, no final de cada artigo, um pequeno truque pretensioso. Não é perigoso, nem muito forte, para não assustar o público. Da merda real, eu continuo. Rabelais realmente queria uma língua extraordinária e rica. Mas os outros, eles tem a língua castrada, fazem-se duhamélicos, giraldos e maurícios. Então, hoje, escrever bem é escrever como Amyot, mas, veja bem, nunca é uma língua traduzida. Germaine Beaumont disse uma vez, a leitura de um livro: " Ah! como é bom de ler! ainda mais a tradução!" É quem dá o mote. É essa a raiva moderna do Francês: ler as traduções, falar como as traduções. Alguns vieram me perguntar se eu havia tomado uma ou outra passagem de Joyce. Sim, você me pediu! Esta é a época... Porque o inglês, ah, é a moda... Eu falo inglês perfeitamente, como o francês. Vá buscar qualquer coisa de Joyce. Não, eu não falo aquela língua, aquela puta língua me irrita... Como Rabelais, eu encontrei tudo na língua francesa. Lanson (que não era um imbecil), disse: "a língua francesa não é muito artística". Não há poesia na França, tudo é muito cartesiano. Ele evidentemente tem razão. Este é o caso de Amyot, cá... Este é um pré-cartesiano, e assim tudo foi arruinado. Não é o caso de Rabelais: um artista. Rabelais, sim, ele falhou, e Amyot ganhou.  A posteridade de Amyot, é tudo Gallimard, todos esses pequenos romances emasculados. Milhares por ano. Mas romances com esses, merda, escrevo em uma hora. No entanto, não serei publicado. Onde está a posteridade de Rabelais? A literatura real? Desapareceu. A razão é clara. Deve-se compreender de uma vez por todas (puritanismo suficiente!) que o Francês é uma língua estritamente vulgar, desde o Tratado de Verdun. Só que não queremos aceitá-la como vulgar e continuamos a desprezar Rabelais. "Ah, é Rabeleiro" às vezes dizem. Quer dizer, né, olha, isso não é difícil, que coisa ... essa falta de correção ... Delicada, delicada ... E o nome de um dos nossos maiores escritores ajudou a moldar um adjetivo difamatório. Monstruoso! Mas era um cara muito forte Rabelais, escritor, médico, advogado, bispo. Ele teve dificuldades , pobre, mesmo em sua vida, ele passou todo o tempo tentando não ser jogado à fogueira. Ele não acreditava muito em Deus, tampouco se atrevia a dizer isso. Além disso, ele não terminou mal: não houve tortura. Isso foi depois, a tortura, quando a academia esquartejou o francês que ele falava (escrevia), para fazer uma literatura de bacharel, patente militar e diploma. Mesmo Balzac não foi em nada ressuscitado. Este á o academicismo baixo, banal!  É a vitória da razão. Razão! Devem estar loucos! Nós não podemos fazer nada disso, todos castrados. Eles me fazem rir. Veja o que lhes contraria: nós nunca fomos capazes de fazer "razoavelmente" uma criança. Nada a fazer, é preciso um momento de delírio durante o coito... O bom em Rabelais é que ele colocou sua pele sobre a mesa, ele arriscou. A morte o espreita, ela o inspira! É mesmo a única coisa que inspira. Eu sei quando ela está lá, logo atrás. Quando a morte está brava... Eu tive em minha vida o mesmo defeito de Rabelais. Eu gasto meu tempo a me meter em situações desesperadoras. Eu sou exaustivamente meticuloso com o ódio. Como ele, eu não tenho nada a esperar dos outros. Eu espero só vômito dos outros, da goela em Meudon. O prefeito, todos, querem minha pele. Ainda encontra um monte de cartas sujas na minha caixa de correio. Nas paredes eles também escrevem... Contra Céline, o pornógrafo... "
(Entrevista de Guy Bechtel, 27 de novembro de 1958)

Essas observações contém a essência das reflexões de Céline sobre o uso da linguagem. Emoção vale mais que razão, e naturalidade de expressão mais do que ordem e clareza. O Homem é condenado a morrer e se ele deseja alcançar a grandeza sendo artista, deve trabalhar como um lacaio para o povo. Não há outra maneira.



1- Duhamélico: ADJ M: Relativo ao escritor George Duhamel (1884-1966).

Le Figaro, fundado em 1826, ainda sob Charles X, é um influente e importante jornal francês, o mais antigo ainda hoje publicado. Recebeu o nome do personagem de Beaumarchais. Sua sede se encontra no 14, boulevard Haussmann, no 9e arrondissement (bairro) de Paris. É um jornal nacional que faz parte do grupo Socpresse, o primeiro da França no setor de imprensa, grupo inteiramente controlado pelo seu presidente, Serge Dassault, grande industrial francês e senador-prefeito de Corbeil-Essones.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

De um Céline à outro (Documentário, 1969)

De um Céline à outro (106 min.), documentário realizado por Yannick Bellon e Michel Polac difundido em duas partes - 8 e 18 de maio de 1969. O documentário apresenta testemunhos de Lucette Destouches, Michel Simon, o Dr. Willemin, François Gibault, René Barjavel, Gen Paul, Dominique de Roux, Michel Audiard...


Seguem 18 vídeos, documentário completo:





















Fonte: http://www.lepetitcelinien.com/2012/08/l-f-celine-bibliotheque-de-poche-dun.html

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Os que morrrerão vos saudam


Contra tudo e contra todos o Dr. Destouches. Inimigo do gênero humano - no fim, além de Lucette Destouches, Céline só se aproximava dos gatos e dos cachorros - e, por incrível que pareça, um médico de profissão. Médico de ambulatório de periferia. A medicina, neste caso, propicia sobretudo a perspectiva do asqueroso. E confirma o sentimento de perseguição. Nas últimas linhas do último romance, a sua gana destruidora aponta para um último perigo: o amarelo. Os chineses, alucina, vão tomar conta de todo o planeta. Por uma feliz coincidência, que os comentaristas não deixam escapar, o fim da nação francesa "bate" com o fim do escritor. De tal forma o catastrofismo celiniano, o antissemitismo, por exemplo, representam um movimento auto-direcionado, uma veia suicidária. Ao terminar "Rigodon", na constatação da invasão da França por hordas de asiáticos, o escritor, pessoalmente, está morrendo.

O resgate da dívida que Céline terá contraído então, na observância quotidiana da blasfêmia, vai ser diretamente proporcional. Mais que à morte vindicativa que lhe impõe, à revelia, um tribunal da Liberação, mais que a condenação à prisão, posteriormente, e a um "estado de indignidade nacional", mais que ao confisco da metade dos seus bens, aquela metade certamente que escapou ao saque da casa de Montmartre... o escritor vai ser condenado à supuração do seu lirismo desandado. Ou, o que talvez signifique o do veneno que secreta, profundamente entranhado.

Céline, em outras palavras, é um condenado à literatura. Entendida como único lugar de se estar. "Que comece a festa!". "Os que morrerão vos saudam!", escreve, nos últimos meses da Ocupação, de dentro de "Féeries pour Une Autre Fois". Antecipando assim o que será o auto-da-fé ultra-ofensivo, o espetáculo histérico do instinto popular. Entregue às feras - dos males o menor para quem está, antes, entregue a si mesmo - mas romanescamente instalado. Essa não seria a primeira vez, em todo caso, nem muito menos a última, em que o escritor estaria, entre frágil e onipotente, em desacordo perfeito com a voz geral.

CÉLINE | Michel Simon recita trecho de Viagem ao fim da Noite | Guerra

CÉLINE
VIAGEM AO FIM DA NOITE
TRECHO | LA GUERRE
RECITADO POR MICHEL SIMON
DO CD  « ANTHOLOGIE CÉLINE | 1894 – 1961
DOWNLOAD DO AQUIVO

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Toda essa desgraça decorre

"Toda essa desgraça decorre de que temos de continuar sendo Jean Pierre ou Gaston, custe o que custar, anos a fio. Este nosso corpo, disfarçado em moléculas agitadas e banais, o tempo inteiro se revolta contra esta farsa atroz de durar. Elas, nossas moléculas, querem ir se perder o quanto antes no universo, essas gracinhas! Sofrem por serem apenas "nós", traídas pelo infinito. Explodiríamos se tivéssemos coragem, apenas beiramos a explosão, um dia atrás do outro. Nossa tortura querida ali está trancada, atômica, debaixo da nossa própria pele, com nosso orgulho." L.-F. Céline, Viagem ao fim da Noite.

sábado, 19 de janeiro de 2013

A casa que vislumbramos atrás do portão enferrujado


Está escrito em letras grandes na caixa de correio: <<Destouches>>. Sem dúvida a casa que vemos atrás das barras do portão enferrujado é da viúva de Céline. O tempo a congelou desde a morte do escritor no 1º de Julho de 1961. Marie-Ange, a guardiã do templo, recebe visitantes mesmo com seus 96 anos, é chamada de "madame". "Você pode passear pela casa, se quiser". A neve range sob os pés. A árvore deixa cair os cachos e a casa é coberta por heras. Logo após a grande janela do andar térreo, um papagaio branco olha fixamente para os intrusos. Este é Toto, "A madame o encontrou 35 anos atrás em um dos bosques de Meudon, assim como Céline" diz Marie-Ange. Madame dorme no primeiro andar, no quarto onde seu marido morreu. Por lealdade, ela jamais quis sair daquele quarto. O olhar estremecedor entre os dois remonta à 1936. Ela tinha 23 anos, ele 41. Ela era uma dançarina sem o hábito da leitura, ele havia escrito Viagem ao fim da Noite. Céline, apavorado pela decadência da carne, tinha amado o rigor físico de Lucette. "O dia não passa sem que a madame fale amorosamente de Loius" sussurra a matrona. É como se o maldito de Meudon ainda vivesse  lá. Á sombra de uma árvore, arqueou sua figura, envolta numa camisola, e emerge atravessando o jardim. Nos fundos da casa,  o belo terraço tornou-se uma laje vulgar de concreto coberta de silvas. A banheira abandonada domina um amontoado de lembranças. As cadeiras de vime onde Céline costumava sentar estão caindo aos pedaços. Hoje, o que resta do gato Bébert descansa sobre um pinus. Um pouco mais adiante está a cadela Bessy, como Céline nos conta em De Castelo em Castelo. Há alguns anos  Lucette não deixa o seu jardim. O mundo de hoje lhe desespera. Desde o seu enclave, ela vela por fantasmas, monta a guarda para o tempo que passa...

sábado, 12 de janeiro de 2013

Louis-Ferdinand Céline - Vida e Obra de Semmelweis (primeiro capítulo)

Mirabeau gritava tão alto que Versailles teve medo. Desde a Queda do Império Romano, jamais uma tempestade dessas se abatera sobre os homens, as paixões em vagas horrendas elevavam-se até o céu. A força e o entusiasmo de vinte povos surgiam na Europa, desventrando-a. Por todo lado eram só tumultos de criaturas e coisas. Aqui, tormentas de interesses, de vergonhas e de orgulho; ali, conflitos obscuros, impenetráveis; mais adiante, heroísmos sublimes. Todas as possibilidades humanas misturadas, desenfreadas, furiosas, ávidas de impossível percorriam os caminhos e os lamaçais do mundo. A morte uivava na esquina sangrenta de suas legiões desparatadas; do Nilo a Estocolmo e da Vendéia até a Rússia, cem exércitos invocaram ao mesmo tempo cem razões de serem selvagens. As fronteiras devastadas, fundadas num imenso reino de Frenesi, os homens querendo progresso e o progresso querendo homens, eis o que foram essas gigantescas festanças. A humanidade se entediava, queimou alguns Deuses, mudou de roupa e pagou à História com algumas novas glórias.

E depois, serenada a tormenta, enterradas as grandes esperanças por mais alguns séculos, cada uma dessas fúrias que partira "súbita" para a Bastilha voltou "cidadã" e retornou às suas insignificâncias, espiando o vizinho, dando de beber ao seu cavalo, chocando seus vícios e suas virtudes no saco de pele pálida que Deus nos deu.

Em 1793, um Rei pagou o pato.
Mais exatamente, foi sacrificado na place de Greve. Do talho de seu pescoço jorrou uma sensação nova: a Igualdade. Todo o mundo quis um pouco, foi um furor. O Homicídio é uma função cotidiana dos povos, mas, pelo menos na França, o Regicídio parecia novidade. Ousou-se. Ninguém queria dizer, mas a Besta encontrava-se entre nós, aos pés dos tribunais, nos trapeados da guilhotina, de boca escancarada. Foi preciso lhe dar uma ocupação. A Besta quis saber quantos nobres vale o rei. Acharam que a Besta era genial.
E em matéria de carnificina foi uma escalada fantástica.
 Primeiro mataram em nome da Razão, por princípios ainda a definir. Os melhores gastaram muito talento para unir a assassínio à justiça. Conseguiram a duras penas. Não conseguiram. Mas, no fundo, que importava? A malta queria destruir e bastava isso. Assim como o apaixonado primeiro afaga a carne que
cobiça e pensa em demorar muito tempo nas confições, e depois sem querer se apressa. Assim a Europa desejava afogar numa terrível orgia os séculos que haviam educado. Era um desejo ainda mais premente do que ela imaginava. Não convém irritar as multidões ardorosas, como tampouco os leões famintos. Agora, dispensava-se, pois, a busca de desculpas para a guilhotina. Mecanicamente, uma seita inteira foi designada, morta, retalhada, como carne, mais a alma.

A flor de uma época foi cortada miudinha. Isso agradou, por um instante.
Poderiam ter parado por aí, mas cem paixões que bocejavam de tédio diante da lentidão dessa minudência, numa noite de horror, derrubaram o cadafalso. Com isso, vinte raças se precipitaram num delírio medonho, vinte povos conjugados, misturados, hostis, pretos ou brancos, louros e morenos, dispararam rumo a conquista de um Ideal.
Empurrados, machucados, sustentados por frases, guiados pela fome, possuídos pela morte, eles invadiram, saquearam, conquistaram a cada dia um reino inútil que outros perderiam no dia seguinte. Viram-nos passar sob todos os arcos do mundo, um após outro, numa ronda ridícula e deslumbrante, arremetendo aqui, derrotados ali, enganados por todo canto, despachados sem cessar do Desconhecido ao Nada, tão contentes de morrer quanto de viver. No curso desses anos monstruosos em que o sangue flui, em que a vida esguicha e se dissolve em mil peitos ao mesmo tempo, em que os lombos são ceifados e esmagados na guerra, tal como as uvas no lagar, precisa-se de um macho.

Aos primeiros relâmpagos dessa imensa procela, Napoleão pegou a Europa e, por bem ou por mal,  conservou-a quinze anos. Enquanto seu gênio durou, a fúria dos povos pareceu organizar-se, a própria tempestade recebeu ordens suas. Lentamente, voltou-se a acreditar no bom tempo, na paz.
Depois, desejaram-na, amaram-na, terminaram por adorar a paz, como haviam adorado a morte, quinze anos antes. Não custou a que começassem a chorar a desgraça das pombinhas com lágrimas tão reais, tão sinceras quanto as injúrias com que cobriam, na véspera, a carroça dos condenados. Só quiseram saber de doçuras e ternuras. Proclamaram-se sagrados os esposos afetuosos e as mães zelosas com tantas exclamações quantas foram necessárias para decapitar a Rainha. 
O mundo queria esquecer. Esqueceu. E Napoleão, que insistia em viver, foi encerrado numa ilha junto com um câncer.
Os poetas reorganizaram suas coortes alarmadas, cem pieguices foram ditas num dia de primavera para a volúpia das almas sensíveis. Criava-se com o mesmo excesso com que se destruíra. Uma brisa de ternura afagou os túmulos incontáveis. O sininho nunca mais saiu do pescoço dos carneirinhos. Em todosos riachos murmuraram-se versos. Bastava que a margarida entreabrisse para que uma senhorita sentimental de verdade se desmanchasse em lágrimas. E não mais que isso para que um homem de bem por ela se apaixonasse pelo resto da vida.

Foi por essa época de convalescença, numa das cidades mais coloridas do mundo, que nasceu Ignace-Philippe Semmelweis (Ignác-Fülöp Semmelweis), quarto filho de um quitandeiro de Budapeste sobre o Danúbio, na ladeira da igreja Santo Estevão, no auge do verão, exatamente em 18 de julho de 1818.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Bessy de Céline

"A cabeça é como uma fábrica que não funciona muito bem... como você quiser... pensar. Dois mil bilhões de neurônios absolutamente em pleno mistério... você está fresco! neurônios entregues à eles mesmos! você tem um acesso, bate o crânio em qualquer parede e em troca recebe mais ideias! você me envergonha... mas aqui estou eu, do seu lado, e eu quero falar ainda... tabelas, brasões, pilares, tintura! mas eu não sei mais... eu encontrei mais! a cabeça está-me girando... oh! mas espere! eu te encontrarei... você e meu castelo e minha cabeça!... mais tarde... mais além... Lembro-me de uma palavra! eu disse! ... sentido animal... de Bébert!... eu encontrei o fio!... Bébert nosso gato... ah! está voltando... que Bébert está como ele mesmo em um imenso castelo no alto de torres sobre cavernas... ele encontra Lili num corredor ou noutro... eles não se falam... pareciam nunca terem se visto... cada um por si! as ondas animais são assim, um quarto de milímetro fora, você é mais você... você existe mais... um outro mundo! o mesmo mistério com Bessy, minha cadela, mais tarde, na floresta, Dinamarca... ela gargalhava pelos campos... eu chamei... vem!... ela ouviu... e continuava fugindo... e isso é tudo... ela passava, nos esbarrava... dez vezes!... vinte vezes!... como uma flecha!... e a descansar em volta das árvores... as pernas tremelhicavam rápidas... bola de fogo! e então ela poderia acelerar, eu poderia dizer... eu existia mais! portanto uma cadela que eu adorava... ela também... acho que me amava... mas a vida selvagem vem antes... durante duas... três horas... eu contei mais... ela estava em fuga, em fúria dentro do mundo animal... através de florestas, prados, coelhos, veados, patos ... ela vem à mim com as pernas sangrando, carinhosa... ela morreu aqui em Meudon, Bessy, ela está enterrada lá, no jardim, daqui vejo o túmulo... ela sofreu para morrer... eu creio, d'um câncer .. ela queria morrer lá fora... eu segurei sua cabeça... eu beijei ela até o fim... aquela besta era realmente esplêndida... uma alegria de lembrança... uma joia à vibrar... como ela era bonita!... sem defeitos... pelugem, corrida, prumo... oh! ninguém se aproximaria caso houvesse um Concurso!

De fato, penso todos dias nela, mesmo lá com aquela febre... em primeiro lugar eu não consigo me desligar de nada... nem de uma lembrança, nem de uma pessoa, muito menos de uma cadela... eu sou fiel, fiel, responsável... responsável de tudo!... uma verdade maldita.. anti-jean-foutre¹... o mundo que vocês gostam!... os animais são inocentes, até mesmo os fugitivos como a Bessy... eles são cegos juntos aos bandos...

Eu posso dizer que a amei, com suas fulgurantes escapadas, eu não a trocaria por todo o ouro do mundo... não mais do que Bébert, um mal-humorado agressivo dilacerado por gravetos cortantes, um tigre!... mas afetuoso, em alguns momentos... e terrivelmente fiel! atravessamos juntos a Alemanha... fiel como um leão...





Em Meudon, Bessy, eu vi, lamentou ter voltado da Dinamarca... nada de fugir em Meudon!... um cervo não!... talvez um coelho?... talvez? ... eu a levei na floresta de Saint-Cloud... ela pululou um pouco, farejou... em zigue-zague... ela veio quase que imediatamente... dois minutos... nada de correr pelos bosques de Saint-Cloud!... ela continuou caminhando com a gente, mas muito triste... ela era uma cachorra muito robusta! ... nós levávamos uma vida infeliz lá, realmente atroz... muito frio – 25°... e sem nicho algum! por dias... meses... anos... o Báltico tomado...

De repente, com nós, tudo bem... ela passou por tudo!... ela comeu como nós... ela não se importava com o chão onde dormia, ela nunca reclamou... por assim dizer ela comeu em nossos pratos... o mundo nos tornou miseráveis e a ela também... ela sofreu para morrer... eu acabei por tentar amenizar a dor... lhe daria até mesmo um pouco de morfina... mas ela ficaria com medo da seringa... eu nunca queria assustá-la... eu a tinha, na pior das hipóteses, mais uns quinze dias... oh! ela não reclamava... mas eu vi... ela tinha força para enfrentar qualquer dor... ela dormia ao lado da minha cama... um momento, de manhã, ela queria sair... eu queria me alongar sobre a palha... logo após o amanhecer... ela não queria se deitar na palha, se recusou... ela queria estar em outro lugar... do lado mais frio da casa e sobre as rochas... ela esta alongada sobre as rochas belamente... ela começa a gemer... era o fim... eu havia dito, sem acreditar... mas era verdade, ela parece recordar de algo... de onde ela vinha, do Norte, da Dinamarca, o focinho virado para o norte, voltado novamente ao norte... o cão fiel de uma forma, fiel à floresta para a qual sempre fugia, Korsor, lá... fiel à vida atroz que levávamos... os bosques de Meudon lhe dizem algo... ela morreu com dois... três suspiros pequenos... oh, muito discreta em tudo... sem nunca reclamar... por assim dizer... em um posição realmente bela... como em plena corrida, plena fuga... mas por outro lado... abatida, acabada... o nariz virado para a floresta, em fuga... lá onde ela esteve, onde havia sofrido.. Deus sabe!

Oh! Tenho visto muitas agonias... aqui... lá... por todos os lugares... mas de longe são bonitas, discretas... fiéis... e naquela noite a agonia dos homens não passava de um tralala qualquer... o homem é sempre o mesmo em cena... o mais simples..."

Louis-Ferdinand Céline, De Castelo em Castelo, 1957.






1 - Jean-Foutre (Perjorativo) (Ofensivo) (Desprezo): Pessoa incapaz, indigna, moral condenável.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Ballet "La naissance d'une fée" 1937

O Nascimento de uma Fada é o primeiro dos três balés apresentados dentro de "Bagatelles por une massacre", reeditado em 1959 no Balé sem música, sem pessoa, sem nada. A relação de Céline com a dançarina Lucette Almansor, sua futura esposa, é provavelmente a origem da decisão d'o escritor se lançar neste gênero de escrita. Esse balé, escrito entre 1935 e 1937, é o mais longo dos três. Céline mescla sacro e mágico, algo já rascunhado na Lenda do Rei Krogold inserida em Morte à Crédito. Como os outros argumentos de balés propostos por Céline, este balé não será apresentado em cena. Os temas de voyeurismo e dança aqui aparecem como obsessão de Céline.


                                                  Argumento

Céline assenta decoro bucólico à uma albergue de uma vila. Situando seu balé em "Louis XV", o escritor associa encantamento, leveza e dança ao universo da floresta e do bosque onde coabitam animais gentis, elfos e Evelyn, uma rapariga bonita.

 Ela está envolvida com o Poeta, mas a velha Karalik, uma bruxa que pode ler o futuro, lança uma maldição sobre ele. Na vila, o diabo convida-os para espiar o interior do albergue, agora estúdio de dança onde se movimentam jovens bailarinas. O Poeta se apaixona por uma delas, esquecendo Evelyn. Desesperada, ela vai até uma clareira no meio da floresta, onde encontra um caçador que acabara de matar uma corça. Ela conta sua história e um dos espíritos da dança oferece a Evelyn uma 'cana de ouro' que lhe permite dançar divinamente. Um cigano, invejoso das dança de Evelyn, a apunhala sob ordens da bruxa Karalik. Morta, sozinha em cena, é logo cercada por pequenos espíritos, que lhe trazem de volta a vida, graças a algumas gotas da Lua. A última cena acontece no Castelo do Diabo. Todos os personagens se encontram para um banquete gargantuesco. O Poeta é acorrentado à uma mesa. Karalik e Evelyn se reencontram. Graças a um sinal de magia, Evelyn faz o Castelo desmoronar, e os dois amantes se encontram no bosque. O Poeta pede perdão à Evelyn, que se torna fada. Ela desaparece com seus íntimos, enquanto ele permanece sozinho no cume d'uma pedra, cantando seu amor impossível...